‘Futuro ancestral’ é caminho para vencer a crise climática, diz jovem ativista indígena
Rayane Xipaia foi a primeira dos participantes a falar na Cúpula Global da Juventude pelo Clima, evento que ocorre nesta semana na UFMG como preparação para a COP30

“As mudanças climáticas não fazem com que a gente perca apenas as coisas tangíveis, elas também afetam as coisas intangíveis: nossas memórias, nossos sonhos, aquilo que realmente somos. E um povo sem memória é um povo condenado à não existência. Como moradora desta terra, filha da Mãe Terra, eu tenho um sonho: o de não ser vista como alvo simplesmente por tentar proteger a vida – inclusive a vida daqueles que nos matam, promovem guerras e desmoralizam nossas culturas e nossa visão de mundo. Como humana, eu tenho um sonho: o sonho de que haja um futuro ancestral.”
Com essas palavras, proferidas em inglês, língua principal do evento, a jovem ativista climática indígena Rayane Xipaia abriu, na tarde desta quarta-feira, dia 2, os trabalhos da Cúpula Global da Juventude pelo Clima 2025, que está sendo realizada na UFMG nesta semana como evento preparatório para a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025 (COP30), que ocorre em novembro no Pará. A Cúpula Global da Juventude pelo Clima 2025 segue até sábado, 5, na UFMG (com transmissão remota para inscritos), com ampla programação, toda ela voltada para a capacitação de jovens lideranças climáticas.
'I have a dream'
Primeira a falar na mesa de abertura, Rayana Xipaia modulou sua palestra como homenagem ao célebre discurso proferido pelo ativista político estadunidense Martin Luther King nos degraus do Lincoln Memorial, em Washington, D.C., nos EUA, em 1963. O discurso ocorreu como parte da Marcha sobre Washington por Trabalho e Liberdade. Nele, Luther King fez uma defesa enfática da possibilidade futura de coexistência harmoniosa entre povos e etnias. O discurso entrou para a posteridade como um modelo de resistência pacifista e engajada ao racismo e à opressão.

Em seu I have a dream brasileiro, Rayana fez ver como, em terras nacionais, será preciso, antes, superar um assustador e pervasivo pesadelo: a violência que hoje subtrai até mesmo a vontade de viver. “Como indígena, eu tenho um sonho: o sonho de que meus irmãos e minhas irmãs indígenas tenham vontade de viver; o sonho de que possamos olhar para um futuro em que nossas taxas de autoextermínio não excedam em três vezes a média nacional.”
Sem limitar seu sonho à solução da opressão vivida pelos povos indígenas do Brasil e da América Latina, Rayane o estendeu a todos aqueles que, de diferentes maneiras, lutam para preservar a biodiversidade brasileira por meio da valorização de seus modos de vida tradicionais. “Como ser humano, eu tenho um sonho: o sonho de que haja esse futuro ancestral. E como podemos construí-lo? Respeitando nossa diversidade, nossas histórias, nossos processos, nossas vidas, nossos biomas – tudo no plural, porque a luta não é apenas ancestral, é também coletiva.”
Em sua fala, Rayane buscou dialogar por diferentes entradas com o postulado do filósofo indígena Ailton Krenak, cujo último livro tem exatamente este nome, Futuro ancestral. Nele, Krenak afirma que o capitalismo está dando metástase e reclama contra o fato de estarmos aceitando esta “humilhante condição de consumir a Terra”. “Como cidadã deste país, eu tenho então o sonho de que aqueles que lutam pela floresta (como os ribeirinhos, os quilombolas, os sem-terra, as quebradeiras de coco babaçu, os indígenas) sejam lembrados com sua história, sua ancestralidade e suas realidades”, demarcou a ativista.

‘Jovens do mundo todo, uni-vos’
Duas outras jovens ativistas ambientais do Sul global falaram na mesa de abertura do evento: Afra Nawar Rahman, de Bangladesh, e Ninive Mendez, do Paraguai. Nawar Rahman lembrou que a crise climática não respeita fronteira, e que, portanto, “nossas ações de combate à crise climática não podem ser divididas por fronteiras".
A ativista ressaltou também que os jovens não são testemunhas da mudança climática, mas herdeiros. “Temos, portanto, de nos recusar a herdar um planeta destruído”, clamou, dirigindo-se aos demais participantes. Cerca de quinhentos jovens ativistas de dezenas de países estão participando do evento: duzentos presencialmente e trezentos virtualmente.
Ninive Mendez, por sua vez, exaltou o treinamento de liderança que recebeu da Global Youth Leadership Center (GYLC), organização internacional que realiza a cúpula. Ela foi uma das jovens selecionadas em edição anterior do evento para receber capacitação, recursos e integração a rede de contatos, capazes de facilitar sua atuação como ativista do clima.
Na presente edição da cúpula, serão selecionadas dez lideranças, entre as participantes do evento, para receber 1 mil dólares cada, com vistas à implementação de projetos de clima em suas comunidades.
A cúpula também vai gerar um documento que será remetido às autoridades presentes na COP30, sugerindo encaminhamentos com base no que terá sido discutido pelos jovens ativistas.
Maior engajamento
A mesa de abertura da Cúpula Global da Juventude pelo Clima 2025 foi composta pela reitora Sandra Regina Goulart Almeida, pelo diretor do Instituto de Ciências Biológicas, Ricardo Gonçalves (o ICB é a unidade acadêmica da UFMG responsável por receber o evento), pelo CEO da GYLC, Ejaj Ahmad, pelo vice-governador de Minas Gerais, Mateus Simões, pelo assessor especial do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Euzébio Jorge Silveira de Sousa, e pelo presidente da Cemig, Reynaldo Passanezi.
Todos fizeram comunicações curtas, em que assinalaram a necessidade de um engajamento maior na questão climática.
A reitora da UFMG, por exemplo, insistiu na ideia de que só será possível realizar alguma transformação nesse campo se houver um trabalho conjunto entre pessoas, instituições e governos. “Temos que aprender com os nossos erros”, pontuou. “Não é possível mudar o mundo sozinho. É preciso cooperar", defendeu Sandra Goulart.
O CEO da GYLC, Ejaj Ahmad, lembrou o caráter global, articulado e não equânime da crise: ao mesmo tempo que os países desenvolvidos emitem proporcionalmente mais gases de efeito estufa, os prejuízos advindos dessa emissão acabam sendo socializados com o Sul global. “Não há outra saída: o mundo inteiro precisa reduzir já as emissões de gases de efeito estufa”, afirmou.
