Morre Letícia Malard, professora da Fale e referência na pesquisa em literatura brasileira
Docente e escritora foi responsável, entre outros feitos, por recolocar em debate a obra de Avelino Fóscolo, autor do primeiro romance sobre Belo Horizonte

Morreu nesta segunda-feira, 24, aos 88 anos, a professora, escritora de ficção e crítica literária Letícia Malard, referência na pesquisa da literatura brasileira. A causa da morte não foi divulgada. Letícia formou-se em Línguas Neolatinas pela antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (da qual se desmembrou a atual Faculdade de Letras), em 1958. Em 1972, tornou-se doutora em literatura pela própria UFMG, com tese sobre a obra de Graciliano Ramos.
Nascida em 15 de novembro de 1936 em Pirapora, Minas Gerais, Malard começou sua carreira nos colégios de Belo Horizonte do fim dos anos 1950, onde ensinava português, espanhol e inglês. De 1959 a 1974, foi professora da Escola Estadual Milton Campos, mais conhecida como Colégio Estadual Central, referência do ensino secundário na capital na segunda metade do século 20. Ingressou no ensino superior em 1966 como professora da Uni-BH. Sua carreira como docente da UFMG tem início na aurora dos anos 1970.
Em 26 de maio de 1971, Letícia Malard foi admitida como professora auxiliar das disciplinas introdutórias do curso de letras da instituição, com foco em teoria da literatura. Daí em diante, foi galgando posições na hierarquia docente (professora assistente, em 1974, adjunta, em 1977, titular, em 1985, e emérita, em 2002) até se consagrar como uma de suas referências no campo do ensino e da pesquisa da literatura brasileira. Em particular, Malard era saudada por ter estabelecido, ainda nos anos 70, conexões inéditas entre literatura e política e literatura e história, a partir da teoria marxista, como certa vez lembrou o professor da Fale José Américo de Miranda Barros.
Entre outros feitos, a pesquisadora foi responsável por recolocar em debate a obra de Avelino Fóscolo, autor do primeiro trabalho de ficção a tratar da mudança da capital de Minas Gerais para Belo Horizonte (o romance A capital, publicado em 1903). Ela o fez com o ensaio Hoje tem espetáculo: Avelino Fóscolo e seu romance, defendido como memorial em 1984, com vistas à sua promoção a professora titular, e publicado como livro em 1987, pela Editora UFMG. Mais tarde, Malard publicaria em livro uma obra inédita do autor, garimpada em seus arquivos.
Sensibilidade
“Perdemos um grande nome da literatura brasileira, uma pesquisadora de enorme talento, uma referência para todos nós, da área da literatura”, afirma a reitora Sandra Regina Goulart Almeida, que é também professora da Faculdade de Letras. “Seu legado maravilhoso ficará para sempre conosco", disse Sandra Goulart, que se recorda, com gratidão, de uma mensagem que recebeu da amiga logo que assumiu o seu primeiro mandato como reitora, em 2018. "Ela escreveu um texto maravilhoso falando da cerimônia, mas também do momento difícil que vivíamos na época, com grande sensibilidade. Foi uma reflexão crítica excepcional", disse.
Letícia foi autora de livros basilares para o estudo da literatura produzida no Brasil. Pela Editora UFMG, publicou os ensaios No vasto mundo de Drummond (2005) e Literatura e dissidência política (2006), além de Divina dama (2013), romance formalmente disruptivo, em que a autora, a partir de um mosaico de vozes, ficcionaliza a vida de personagens de uma favela imaginada, em trama relacionada ao tráfico de drogas.
Sempre disposta a ajudar, Letícia Malard respondia com prontidão e dedicação às mais variadas consultas que lhe eram feitas por alunos, colegas e jornalistas. Generosa, não se furtava a abrir as portas da sua casa para receber interlocutores intelectuais. Além disso, a pesquisadora se manteve atuante por toda a vida. Após a aposentadoria, seguiu prestando assessoria a diversos órgãos acadêmicos e culturais, e era comum vê-la ora na plateia, ora no púlpito de eventos realizados nos ambientes intelectuais de Belo Horizonte, como a Academia Mineira de Letras (AML).
A professora foi consultora editorial de instituições como a Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), de 1986 a 1996, e a Universidade de Brasília (Unb), de 1997 em diante. Na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig), atuou como parecerista a partir de 2013, contribuindo para o melhor direcionamento dos recursos disponíveis à boa produção acadêmica do período.
Em certas passagens de sua vida, a história da professora se confunde com o pano de fundo da melhor prosa mineira do século 20. Em conversa mantida sobre a obra de Fernando Sabino, ela contou ter sido colega de sala, na Faculdade de Letras, de um dos tantos personagens da vida real que inspiram Sabino na composição do protagonista de O grande mentecapto, Geraldo Viramundo. "Ele era muito mais velho do que a turma, tinha problemas mentais e era protegido da cúpula da escola", lembrou. Em outro momento, confidenciou também ter sido amiga de “algumas das pessoas-personagens de O encontro marcado”, uma das obras-primas do autor mineiro.

As homenagens
Colegas da UFMG e da cena cultural mineira postaram depoimentos nas redes sociais homenageando a mestra e colega. “Que notícia triste! A Letícia iluminou o meu caminho e o de vários colegas na Fale por meio de seu amor e entusiasmo em relação à literatura brasileira. Que ela ilumine novos caminhos em outros planos”, escreveu Marcos Antônio Alexandre, professor da Faculdade de Letras. “Letícia Malard foi uma profissional competente e, mais do que isso, uma amiga instigante e afetuosa. Em longas conversas com ela, aprendi muito sobre literatura. Hoje é um dia de a ela render as mais belas homenagens e também de deixar a tristeza fazer luto em mim”, anotou Lucília de Almeida Neves Delgado, professora aposentada de História e Ciência Política da Fafich.
A professora Beatriz Vaz Leão, da Faculdade de Letras, declarou: “Tristeza... Foi minha professora e eu amava as suas aulas.” Teodoro Rennó Assunção, também da Fale, se disse "muito tocado. Fui aluno dela e aprendi muito com ela. Era uma pesquisadora muito honesta em tudo o que fazia”, lembrou.
“Hoje nos despedimos de uma das melhores: Letícia Malard. Mulher forte, professora competente, intelectual de altíssimo nível, certamente uma das mais completas que Minas ofereceu ao Brasil”, registrou o jornalista e escritor Rogério Faria Tavares, membro da AML, que Letícia tanto frequentava. “Ela foi uma pensadora da cultura, alguém que dinamizou a vida cultural de Belo Horizonte e de Minas Gerais com suas conferências, palestras e seminários. Vocacionada para a sala de aula, Letícia tinha uma generosidade imensa para partilhar seu conhecimento. Não tinha preguiça de ensinar nem de discutir com os alunos o que sabia. Foi, sobretudo, uma professora e, depois, uma pesquisadora em literatura brasileira”, disse ainda Faria Tavares, em entrevista ao jornal Estado de Minas.
Há dez anos, o programa Imagem da palavra, da Rede Minas, entrevistou Letícia Malard sobre a censura à produção literária brasileira nos anos de chumbo, após o golpe de 1964. A primeira parte da entrevista pode ser assistida no player a seguir: